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TASSIANA BARRETO

Participante en brigada sur-sur en Guatemala 2016, del Movimiento de los Trabajadores Rurales sin Tierra (MST) Brasil



Passar alguns dias com a família Merida foi uma das primeiras coisas que fiz quando cheguei na Guatemala. Caminhando pela parcela com o senhor Merida, ele me contava como tinha conquistado a terra, passou mais de 10 anos trabalhando nos EUA, enquanto a esposa e filhos ficaram na Costa Sur da Guatemala. Durante o período nos EUA, a manutenção da relação familiar se baseava no dinheiro que ele mandava para a família. Realizando trabalho precarizado, sem direitos, Merida gastava para sobreviver lá, sustentava a família e ainda juntava para comprar um pedaço de terra. Merida viveu muitas aventuras, um sobrevivente de tantos hermanos e hermanas mortos, presos, perdidos na travessia e vida nos EUA.

Lembro com carinho daquela caminhada pela parcela do Merida quando começava a ter contato com a Guatemala. Ele me mostrou orgulhoso a sua produção de princípios agroecológicos. Tinha bastantes frutas e verduras, muito abacate, estávamos colhendo algumas coisas pra levar. Ele cortou um cacho de banana, eu fui segurar pra ajudar e ele me disse: “cuidado com a bananeira, ela mancha.”, quando olhei minha calça já tinha encostado no caldo da bananeira cortada, ela ficou marrom na hora e começamos a dar risada. Segui pela Guatemala orgulhosa do povo latino americano e da mancha da banana que me possibilitaria contar essa história. Cabal!

Fui entendendo aos poucos como a emigração para os EUA era algo comum ao povo guatelmateco, no restante do intercâmbio percebi que praticamente todas as famílias que conheci tinham alguma experiência de viver ilegalmente nos EUA ou na tentativa de viagem pra América do Norte. Muitas das histórias eram trágicas, sem visto a opção é chegar por terra, soube que as mulheres tomam pílula contraceptiva para não engravidar nos estupros que sofrem no caminho. O marido de uma amiga não sobreviveu ao cansaço físico, pouca alimentação e hidratação até a fronteira e acabou morrendo, ela nunca pode velar seu corpo que ficou abandonado em algum canto do norte do México.

O que vivenciei durante o intercâmbio – as histórias das pessoas, as organizações, a resistência do povo maya, as mulheres guerreiras – me inspira na minha luta cotidiana. Obrigada, querida Guatemala, onde a CIA fez sua primeira experiência de Golpe, onde o imperialismo norte americano com toda sua força bélica e ideológica a manteve subordinada. Guatemala, do povo valente, que subiu as montanhas para sobreviver e lutar bravamente pela liberdade.